Publicado por: sivaldop | Novembro 11, 2007

Máquinas, simbiose e cultura do descartável

Em boa parte daquilo que se chama “países desenvolvidos” a presença das “máquinas” (mecânicas, elétricas, eletrônicas ou digitais) não é apenas uma presença significativa, mas é sobretudo, tão incorporada no dia a dia que, olhando de dentro, quase nem notaríamos. É como ar, como oxigênio: está tão difundido ao nosso redor e é tão incorporado à nossa sobrevivência que simplesmente esquecemos que ele existe. Obviamente que isso acontece em países como o Brasil mas de forma bem mais reduzida e diria, bem mais setorizada: não é tão introjetada na cultura de todas as classes sociais (por questões financeiras, óbvio). A presença das máquinas é forte na Europa, principalmente em países como Inglaterra e Alemanha (países como a França um pouco menos) mas é muito forte aqui nos EUA. Você vai encontrar máquina pra tudo e pra todos os gostos e utilidades mais sutis. Por exemplo, um mini-ferro de passar roupa para viagem (algo um pouco maior que um celular); mini-aparelho para tirar “fios” de blusas (aqueles fios que ficam sobressaindo do tecido); panela de cozinhar elétrica; mini-liquidificador para viagem e até um “cinzeiro elétrico” que suga a fumaça do seu cigarro enquanto você fuma e evita que o cheiro se espalhe pelo quarto:

 

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Porém, alguém poderia contra-argumentar: é possível achar essas pequenas parafernálias se procurar no Brasil, oras!. Sim… Mas não com tanta facilidade, ali no supermercado da esquina. E quando você sair do caixa do mercado vai ainda se deparar ainda com máquina pra “trocar dinheiro por moedas”, uma “maquina para locar dvds” e antes de entrar no mercado teve que usar uma “maquina” para tirar o seu ticket para estacionar na rua”. E o mais interessante é que, as vezes, a máquina é mais barata do que o seu “similar pré-moderno”como por exemplo, é o caso da panela: vc compra a tal panela elétrica por 15 dólares e vai pagar o mesmo ou até mais caro por uma panela de alumínio do mesmo tamanho. Não é que o norte-americano goste de tecnologia: ele simplesmente não saberia mais viver sem ela. O baixo custo das máquinas é um diferencial importante aqui. Ter ou não ter carro, por exemplo, é uma questão de opção, não necessariamente de falta de grana. Você compra um carro usado em perfeitas condições de uso por 1500 dólares (aliás, mais barato inclusive), o que em termos proporcionais seria um salário-mínimo e um pouco mais. Nas casas, óbvio, há máquina pra tudo e aqui em Seattle dificilmente você vai encontrar um varal com roupas estendidas em um quintal ou em um apartamento. Pra isso existe a máquina de secar que não é tão comum nas casas brasileiras e que geralmente vemos mais em lavanderias. A forte presença das máquinas, conciliada com uma cultura de consumo e o baixo custo de aparelhos acaba gerando uma “cultura do descartável”. Todo mundo já ouviu alguma história sobre “aparelhos” em bom estado de uso que se acha facilmente nos lixos do Japão ou dos EUA. Outro dia, um colega contou que estava chegando em casa e viu um monitor de computador aparentemente em perfeitas condições em cima da lata de lixo. Na tela do monitor havia um papel colado (tipo recado deixado pelo ex-dono para potenciais interessados) escrito: “It’s working”. Ele levou pra casa e hoje as crianças usam para jogar video-game. Por fim, ainda falando em “cultura” vale registrar a “cultura do headphone” que percebe aqui, principalmente entre pessoas de gerações mais recentes, ali entre os 14 e os 40 anos. Isso também é crescente em cidades como São Paulo no Brasil, mas aqui – principalmente no U-District que é um bairro universitário – é praticamente uma regra: 70% das pessoas andam na rua com um headphone acoplado no ouvido (inclusive eu…).

 

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Isso simboliza bem essa relação simbiótica entre homem-máquina miscigenada com a cultura do ‘individualismo” (cada um no seu mundo, com sua máquina). Lembro que quando estava em Londres houve uma festa na estação de Liverpool que ocorria da seguinte forma: centenas de pessoas ficam dançando no meio do saguão principal da estação porém, sob silêncio. Isso porque a idéia da festa era não haver música “coletivizada”: os participantes usavam seu iPode, mp3 com seu headphone, dançando junto com os outros, entretanto cada um ouvia a sua própria música. No mais, fica aquela pergunta que se tornou clássica nesse início de século XXI: O que é a Matrix ?


Respostas

  1. Sivaldo,
    Essa das máquinas foi ótima. Eu vivia fazendo piada sobre o que batizei de “chão que anda”, aquela espécie de corredor rolante que tem em alguns shoppings e aeroportos aqui. Além do consumismo irrefletido e do baixo custo dos aparelhos, no entanto, é preciso notar a função direta de muitos deles que é salvar tempo. Numa sociedade onde comprovadamente “Time is money” as tais parafernálias ajudam a salvar ambos tempo e dinheiro.


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